A queda de Ricardo Vélez do cargo – primeiro ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro – despertou em educadores e demais profissionais do setor uma fagulha de esperança de que seu sucessor seria alguém mais alinhado com a área, com formação em Pedagogia, por exemplo. Mas as chances disso acontecer já eram remotas ainda durante as especulações sobre a queda iminente de Vélez, dado ao perfil do próprio presidente Jair Bolsonaro, que não surpreende mais ao recorrer sempre ao mesmo algoritmo político quando decide mudar a equipe.
Sai o teólogo, filósofo e ensaísta Ricardo Vélez; entra o economista Abraham Weintraub. Ele assume o cargo de ministro da Educação como um segundo ‘olavete’ no MEC – como são chamados os seguidores do astrólogo e autodeclarado filósofo Olavo de Carvalho, que de tanto recorrer a um palavreado chulo e impublicável nas redes sociais, acabou ganhando dos internautas o apelido de ‘Dercy Gonçalves da Virgínia’, em referência ao estado norte-americano onde mora hoje.
“Seguindo na contramão do processo ideológico do MEC, o novo ministro da Educação está tão perdido quanto o seu antecessor. Tendo como base a filosofia de Olavo de Carvalho, onde o ódio aos esquerdistas se faz presente em cada decisão tomada, penso que [Abraham Weintraub] não apresenta embasamento técnico das bases educacionais conquistadas ao longo dos tempos”, analisa Enaura de Lima Fernandes, diretora do Sindicato dos Professores de Alagoas (Sinpro/AL). “Infelizmente, a educação no nosso país segue condenada ao fracasso”, completa.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal), Maria Consuelo Correia, avalia que independentemente do nome que ocupa o MEC, o que preocupa a categoria é a ‘completa ausência’ de um programa para a educação brasileira por parte do governo de Jair Bolsonaro. Segundo ela, o governo federal esconde-se por trás de ‘falsas polêmicas’ e ‘cortinas de fumaças’ na educação e não apresenta uma única proposta para os problemas concretos da educação brasileira.
“Temos aí a desvalorização dos profissionais da educação e o fim do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação], previsto para este ano, a erradicação do analfabetismo, o financiamento das universidades públicas, as faltas de vagas para creches e pré escola, além do cumprimento das metas do PNE [Plano Nacional de Educação]”, pontua. “O ex-ministro Vélez sai do cargo deixando um legado de incompetência, tendo sido incapaz de pelo menos manter as políticas públicas necessárias que já vinham em desenvolvimento pelo MEC, como na questão da prova do Enem, e cujo único projeto efetivamente apresentado foi o toque do Hino Nacional nas escolas públicas seguido pelo slogan de campanha do presidente enquanto era candidato”, destaca.
Vergonha na Câmara
A participação decepcionante do ex-ministro Ricardo Vélez na Câmara dos Deputados, onde expôs o completo despreparo e falta de conhecimento sobre gestão pública e políticas educacionais, já deveria ter sido suficiente para a sua demissão. Quem analisa ainda é a presidente do Sinteal, que lamenta o brasileiro ter esperado mais duas semanas para que visse a queda de Vélez, “sem que o presidente da República prestasse uma justificativa pela completa inércia da pasta”.
E a substituição de Vélez pelo economista Abraham Weintraub nem de perto satisfaz os anseios do conjunto dos educadores do país, pois novamente evidencia que o problema é a ausência de um programa para a educação que dialogue com as demandas reais. “O novo ministro é alheio aos debates educacionais históricos, percebe-se que a intenção é satisfazer os setores do mercado financeiro que tem interesses nos recursos da educação, especialmente ligados a editoras e grandes corporações educacionais, mas que não se traduz em alternativas para os problemas concretos citados anteriormente”, alerta Consuelo Correia.
Ainda segundo a presidente do Sinteal, cabe agora às organizações da sociedade civil ligadas ao movimento educacional trazerem a pauta à tona. “Porque, claramente, nenhuma proposta satisfatória virá do governo Bolsonaro, especialmente enquanto ele não se propuser a democratizar a educação e abrir os espaços institucionais para o debate público”. completa.
MEC pode virar máquina de perseguição política, alerta associação
Em nota encaminhada à imprensa, a Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG) acredita que o governo Bolsonaro vai transformar o Ministério da Educação em um máquina de perseguição política e ideológica.
“Ao indicar para o cargo o ministro Abraham Weintraub, o governo reafirma a mesma linha para o MEC – ou seja, trata-se de um projeto. O conteúdo vai ficando claro: transformar esse instrumento fundamental de estruturação da educação brasileira em uma máquina de perseguição política e ideológica e agravar o processo de submissão aos setores financeiros ligados à educação privada. O objetivo destes é o sucateamento da universidade pública, visando assegurar espaço para a expansão desregulamentada do ensino privado, a exemplo da abertura ao mercado do ensino à distância”, diz a nota. “Precisamos continuar atentos. Caiu um ministro incompetente, mas o projeto que representava permanece”, completa o documento.
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