O recente racha no grupo de parlamentares na Câmara dos Deputados conhecido como “centrão” pode ter feito cair por terra as pretensões de duas figuras importantes da política nacional: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do deputado federal Arthur Lira (PP). O primeiro busca garantir votos suficientes na Casa para evitar o andamento de pedidos de impeachment e garantir as votações de seu interesse; o segundo em se construir como alternativa a Rodrigo Maia (DEM) na presidência da Casa.

O “centrão” era formado por 252 deputados de 10 partidos diferentes e com mais os 41 parlamentares do PSL, formava a base de apoio de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, com o total de 293 cabeças. Mas com a saída de MDB, DEM, PTB e PROS, esse montante ficou distante no horizonte. Agora, a base de apoio governamental conta com 199 parlamentares, o que é insuficiente para a aprovação de reformas e tranquila governabilidade, mas ainda pode impedir a votação de pedido de impeachment.

No outro lado havia 78 parlamentares e agora conta com 171, o suficiente, a depender da situação, para eleger o presidente da Câmara dos Deputados.

Há quem atribua o racha à voracidade política do parlamentar de Alagoas, Arthur Lira, que lidera o “centrão” na Câmara dos Deputados. À Tribuna, ele reafirma que o grupo fora formado apenas para a composição da Comissão de Orçamento da Casa.

“O bloco que chamam de ‘centrão’ foi criado para formar a Comissão de Orçamento. Então é natural que se desfaça, o que era para ter acontecido em março, mas a conjuntura da crise sanitária não possibilitou”, pontua. “Não existe um bloco do Arthur Lira. Agora, é importante dizer que o ‘centrão’, pensado assim como partidos de centro, continua ativo no Congresso Nacional. Então, avalio que é um momento para que todos se desprendam de vaidades. Não é hora de brigar por paternidade das reformas”, completa o líder do PP.

Arthur Lira ainda garante não ter havido qualquer alteração no diálogo com o Palácio do Planalto e que partidos saídos do grupo ainda votarão com o governo em pautas importantes.

“O DEM e o MDB são partidos de Centro e vão apoiar as pautas importantes para o país como a Reforma Tributária, que está em análise no Parlamento. Não houve alteração no diálogo com o Planalto. Estamos discutindo com o presidente Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes a melhor proposta para que o Brasil fortaleça sua economia e traga justiça social na hora do pagamento de impostos”, diz Arthur Lira.

ACUADO

A aproximação de Jair Bolsonaro com o ‘centrão’ começou em abril deste ano por causa da repercussão das investigações sobre ele ter interferido na Polícia Federal, após a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça. O presidente teria ficado acuado. Em junho, com a prisão de Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho – e senador – Flávio Bolsonaro, por suspeitas de prática de “rachadinha” com assessores do parlamentar. Foi a partir daí que o ex-capitão passou a oferecer cargos em troca de apoio político.
Cientista política não crê em impeachment

A saída dos parlamentares do chamado ‘centrão’ gerou em alguns a expectativa de fortalecimento na Câmara de apreciação dos pedidos de impeachment contra Jair Bolsonaro, mantidos na gaveta por Rodrigo Maia. Para a cientista política Luciana Santana, o esvaziamento do grupo gera um reordenamento de forças no parlamento, mas ainda insuficiente para se dar início a um processo de impedimento do chefe do Poder Executivo.

“Acredito em reconfiguração de forças. E aquele ‘centrão’ prometido ao Jair Bolsonaro quando da aproximação já não existe mais e ele perde muito apoio para a aprovação de temas de interesse do governo e que não sejam compartilhados por parlamentares de outros partidos. Mas não acredito em impeachment”, afirma. “Esses partidos que saíram desse ‘centrao’ não têm posição fechada sobre isso. Se tivessem, o Rodrigo Maia teria acatado alguns dos pedidos que chegaram à Câmara, além de haver outras variáveis, como a popularidade do presidente, por exemplo. Queria ou não, por mais que tenha diminuído, ele ainda tem quantidade considerada de apoio. Teria de haver mais fragilização, de ter ruas pressionando. A própria pandemia dificulta isso”, completa Luciana Santana.

Se para a cientista política, o racha no ‘centrão’ não gera – por si só – a possibilidade de impeachment, para parlamentares da bancada alagoana na Câmara, ouvidos pela Tribuna, o entendimento parece ser o mesmo.

Na avaliação de João Henrique Caldas (PSB), conhecido como JHC, a relação do presidente com o parlamento segue em normalidade.

“O impeachment não é uma matéria que esteja na ordem do dia. Quanto à dinâmica interna no Congresso, há um clima de incerteza pelo ineditismo com o qual esse governo lida com o Legislativo. Se há um aspecto não tão positivo, que seria a previsibilidade, há um lado bastante sadio que é uma maior independência do legislativo. De toda maneira, o volume de votações tem sido bastante grande, então os poderes têm funcionado, cada um em seu espaço institucional”, afirma JHC.

Já para Paulão (PT), a política econômica do atual governo ajuda a impedir a avaliação de processo de impedimento do presidente na Câmara dos Deputados, além do chamado “toma-lá-dá-cá”.

“Hoje Bolsonaro faz os acordos mais complexos, mais subterrâneos, da história da política brasileira”, ressalta. “No campo da economia, mesmo antes de o ‘centrao’ ser integrante oficial do governo, já havia unidade com a maioria do parlamento, que é conservadora e concorda com o desmonte do Estado, que não foi à frente por causa da pandemia”, completa Paulão.

Já a deputada Tereza Nelma (PSDB) não quis comentar os rachas no ‘centrão’, mas criticou a relação com os partidos deste bloco.

“Os analistas dizem que é a política do toma lá dá cá. Meu caminho é outro. Do que eu sei do convívio na Câmara, essa tentativa de ressuscitar o ‘centrão’ teve três objetivos centrais: emendas parlamentares, ou indicação de destinação de recursos pelos ministérios, de grande influência nas eleições municipais; evitar um eventual impeachment do presidente Bolsonaro; e eleger o futuro presidente da Câmara”, comenta. “Para uns, o governo deu oxigênio ao Centrão, para outros foi cloroquina. Parece que não houve acordo, tanto em virtude da concentração de poderes nas mãos do líder do PP, que também articulava a própria candidatura à presidência da Câmara. O certo é que, quando se trata de aliança para a conquista de poderes, os acordos são mais difíceis. Pode ser somado a isso os efeitos da pandemia e os grandes desgastes do Governo Federal”, completa Tereza Nelma.

A reportagem tentou contatar Marx Beltrão (PSD), através de sua assessoria, mas até o fechamento desta edição não houve resposta.

Fonte: Tribuna Independente / Carlos Amaral

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